sexta-feira, 17 de abril de 2015

Liberdade espiritual



Liberdade espiritual

                Existe uma liberdade espiritual?  Existe o que se pode chamar de independência dos ditames, dogmas, crenças e doutrinas de religiões institucionalizadas e, ao mesmo tempo, uma ligação, uma sintonia fina com a existência, com o Todo, com o Universo?  O esoterismo advoga esse direito e disponibiliza métodos, conceitos e práticas para que se realize tal intento.  Mas é verdade, também, que mesmo as assim chamadas fraternidades, ordens e sociedades esotéricas, espiritualistas e místicas guardam, em si, um acúmulo de material teórico que, se não é de todo supérfluo, pelo menos, 99% sim, totalmente superficial, descartável e sem valor para a espiritualidade prática, real.
                Alguém pode, desse modo, declarar “tenho um lado espiritual independente de religiões” como muitos o fazem na falta de algo concreto com que expressar sua preferência e/ou caminho espiritual?  Pode, claro.  Mas e a seguir?  O que fazer para poder florescer esse lado?
                Depois de milênios dentro de sistemas opressores que regulavam a fé e a espiritualidade, temos uma nova era resplandecendo no horizonte da humanidade.  O Estado tornou-se laico, na maioria das partes do globo, garantindo o direito de livre escolha para professar a fé aos seus cidadãos.  Mas até que ponto essa liberdade é efetiva?
                Vemos hoje o perigo do fanatismo beirar às raias do absurdo ou mesmo chafurdar na lama do absurdo mesmo com o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, o Boko Haram, o Hezbollah e a Jihad Islâmica.  Essas organizações terroristas influenciam centenas de milhares  de pessoas das mais variadas classes econômicas, recrutando até lobos solitários para suas ações em favor da causa.
                Mas esse fenômeno, na verdade, é apenas um sintoma de uma doença maior e muito mais complexa.  A doença, segundo alguns analistas religiosos ultra-ortodoxos e segundo os próprios fanáticos é a secularização das sociedades.  Porém se isso fosse verdade, as populações da Índia e do Paquistão, por exemplo e de outros países ”menos secularizados” não sofreriam com violência, guerras, crime e... fanatismo.  Como é o caso dos Sikhis na Índia e dos talibãs no Paquistão.
                Não, a liberdade espiritual é algo mais amplo e seu espectro delimita um todo que vai da laicidade do Estado até comportamentos culturais e de tradição.  Isso para citar apenas certas questões relativas à essa problemática. A verdade é que a maior parte da humanidade dorme um sonho de ilusão e está fragmentada, sem raízes.  Essa é a doença maior.
                Porque o subjetivo do indivíduo não pode, de maneira nenhuma, ser abarcado por uma religião institucionalizada.  Esses “bastiões da fé” tem mais com o que se preocupar: a conformidade e à sujeição das sociedades ao status quo e à normalidade ou ao que se convencionou como normal.  O indivíduo é esmagado por todas essas diretivas da igreja e, a rigor, não entra nas pautas de sacerdotes e clérigos, a não ser para ser chamado de ovelha, sendo menos do que um ser humano, basicamente.
                As ordens iniciáticas, juntamente com as fraternidades e sociedades ditas esotéricas vão além e tentam trazer o indivíduo à sanidade espiritual.  Mas seus esforços esbarram nas muitas hierarquias, degraus e graus que o adepto precisa alcançar antes de realmente ser levado à sério.  Pré-condição que o enreda tanto na teia dessas organizações que suas opiniões sofrem lavagem cerebral.  Sem falar que a tradição, a corrente espiritual do mestre ao discípulo só pode ser passada em silêncio, olho no olho e diretamente.  Por mais boa vontade, método e contextualização que tenham, não podem passar o que uma Escola de Mistérios passava aos seus neófitos na Antiguidade.
                A liberdade espiritual, desse modo, é impossível?  Eu não diria isso mas antes diria que a verdadeira liberdade constitui-se de amor divino.  Esse amor que só uma mãe e um pai possuem pelo seu filho.  Quando o devoto sente a Abóbada Celestial grávida da vida que pulsa nos recônditos das galáxias, nebulosas, quasares, buracos negros e constelações de todas as partes do cosmo, só assim, essa pessoa pode dizer: Sou filho do Universo. 
                A liberdade espiritual é, a um só tempo, redenção do espírito humano e transcendência da vida terrena e só pode ser alcançada quando sentimo-nos irmanados ao Todo da humanidade, bem como ao Todo da natureza na iluminação.  Nosso destino final como seres humanos legitimamente divinos que somos.  Paz e luz.

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)


Nenhum comentário:

Postar um comentário